Abriu o ADDHU/CYCA Centre for Orphaned Children no Quénia.                                                                               ADDHU no Quénia. Prioridade aos órfãos.                                                                                                                Líderes "SEM TERRAS" de Mato Grosso vão morrer de empreitada!                                                                                  A situação no Zimbabué: a mulher africana, que vida?                                                                                           Despejos e demolições forçadas em Luanda.                                                                                                                  A violação constante dos direitos das crianças.                                                                                                               A mudança de Mae Sot, conhecida como a “pequena Birmânia” da Tailândia.                                                          Crianças do Mundo.                                                                                                                           Prostituição/Turismo sexual, a escravatura do séc. 21. O Cambodja, o país onde os traficantes de sexo são reis.               As Crianças soldado.

 

Abriu o ADDHU/CYCA Centre for Orphaned Children no Quénia

Dando seguimento ao seu projecto de ajuda humanitária no Quénia, a ADDHU abriu, no passado dia 15 de Janeiro, tendo como parceiro local a Capital Youth Caucus Association (CYCA), o ADDHU/CYCA Centre for Orphaned Children - CfOC Trust/ADDHU-Kenya. Agradecemos a todos os que colaboraram, com os seus donativos, apoio e incentivo, na realização de tão importante projecto.

 Embora somente com 15 crianças, uma vez que os meios financeiros de momento, não nos permitiram acolher as 40 crianças que estão previstas.

A abertura deste centro significa um avanço importante no caminho da ajuda humanitária como primeiro passo na defesa dos direitos humanos, ideia que a ADDHU defende com entusiasmo. Esperamos que, a partir de agora, outros se juntem a nós no desenvolvimento deste projecto, ajudando a ADDHU a acolher as restantes crianças e a adquirir o restante material que ainda nos falta.

O ADDHU/CYCA Centre for Orphaned Children situa-se em Ongata Rongai, perto do bairro de lata de Kware, na zona de Nairobi. As crianças são oriundas desse bairro de lata e muitas delas seropositivas, havendo os seus pais sido vítimas de SIDA. Este Centro visa ser, no futuro, um Centro de Acolhimento de excelência onde as crianças poderão residir e receber educação escolar e cívica, bem como o tratamento médico necessário e adequado a cada um dos casos, estando previsto acompanhamento psicológico e médico até completarem 18 anos. Será também desenvolvido no Centro um projecto de Ensino de Informática para que se possa alargar os horizontes e as expectativas de profissionalização futura.

A ADDHU conta enviar voluntários portugueses no campo do ensino geral e de informática, bem como técnicos de saúde e lazer.

O nosso coordenador local é o director executivo da CYCA, Armstrong O'Brian Ongera, Jnr.

Apelamos à ajuda de todos os que nos queiram apoiar neste projecto, divulgando-o e contribuindo com donativos para que possamos continuar este nosso trabalho de ajuda humanitária no Quénia. Uma forma de participar é aderir ao nosso programa Dádivas de Esperança (consulte as Acções e Actividades).

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ADDHU no Quénia.

Prioridade aos órfãos: apadrinhamento e criação de um centro de acolhimento a órfãos e crianças abandonadas no Slum de Kitui Ndogo. A ADDHU enviará voluntários para ajuda no campo da saúde e educação.

Laura Vasconcellos, presidente e fundadora da ADDHU deslocou-se recentemente ao Quénia para estabelecer uma parceria com uma organização local no sentido de prestar ajuda humanitária nesse país. Para estabelecer prioridades no auxílio a prestar, Laura Vasconcellos visitou várias regiões no país e distribuiu cerca de 2000 pacotes de pensos higiénicos obtidos em acções de angariação nos supermercados Pingo Doce e também por doação da fábrica Renova. Será feito, por parte da ADDHU, o envio regular deste material de higiene feminina que foi recebido entusiasticamente por parte da população feminina do Quénia.

A ADDHU apadrinhou as duas primeiras crianças, Robert e Adam, órfãos vítimas da Sida e seropositivos.

Se pretender ajudar as crianças órfãs do Quénia num sistema de apadrinhamento envie um e-mail à ADDHU solicitando as informações necessárias e entraremos em contacto consigo.

Estas crianças precisam da sua ajuda.

A visita de Laura Vasconcellos começou pelos “slums” bairros de lata em Nairobi, designadamente,  Kitui Ndogo, Kamukunji, e Kware, Ongata Rongai-Kajiado, para além do já conhecido Kibera.

Cerca da cidade de Nakuro foi efectuada uma visita a uma comunidade pobre em Nanyani, onde Laura Vasconcellos ouviu vários membros da comunidade que expuseram as suas necessidades urgentes, sobretudo no apoio a crianças órfãs cujos pais foram vítimas da Sida, e também o auxílio a ser dado aos jovens de modo a adquirirem formações específicas para que não recorram à droga, prostituição e crime uma vez que nada mais têm para fazer.

Na região de Kisii, muito afectada pela elevada incidência de Sida, foram visitadas aldeias situadas em zonas remotas e isoladas cujas carências das populações são inúmeras, entre elas a falta de água, centros de cuidados de saúde, escolas/orfanatos entre outras. Aqui, a ajuda em regime de micro crédito seria a aplicar de modo a ajudar estas populações a desenvolver um pouco o sistema agrícola, criação de vacas para pequena produção de leite e organizar pequenas estações de moagem de cereais para farinha.

Em Kitutu Masaba, Nyamira, foi visitado o Dispensary em Tombe, centro de cuidados de saúde muito precário, sem condições de higiene nem medicamentos, situado numa região remota e isolada, onde uma só enfermeira trata e atende uma média de 200 doentes por dia.

Tanto no campo do ensino como no de cuidados de saúde o envio de voluntários médicos, enfermeiras/os, psicólogos (zona que necessita aconselhamento aos jovens e mulheres visto existir um número elevado de mães adolescentes e de ainda se praticar a mutilação genital feminina) e técnicos de ensino (inglês e, a pedido dos responsáveis locais, língua portuguesa e educação cristã – a aprendizagem do português foi bastante solicitada pois permitiria o melhor entendimentos com outros países africanos como Angola e Moçambique) bem como foi solicitado o envio de técnicos de ensino no campo  da carpintaria, electricistas, canalizadores e informática de modo a que os jovens conseguissem ter profissões com as quais pudessem trabalhar.

Foram visitadas escolas e orfanatos na região de Kitutu Chache.

Na região de Kisumu foram vistos os problemas dos pescadores (Lago Vitória) uma das comunidades mais pobres visitadas.

Ainda foi visitada a região de Nanyuki onde existem problemas semelhantes e também algumas comunidades masai.

Brevemente, poderá consultar as fotografias desta deslocação ao Quénia, bem como, se possível, um pequeno filme/documentário da mesma.

Em seguida segue a versão original do artigo escrito pelo correspondente da ajuda humanitária da CYCA, associação parceira da ADDHU no Quénia, após a visita da presidente da ADDHU ao Quénia.

Olá amigos

O Quénia é uma terra de contrastes. Desde as paisagens mais espectaculares às maravilhosas praias de areia branca, às montanhas cujos cumes estão cobertos de neve, a vida selvagem, um dos maiores lagos de água doce do mundo, variadas culturas, várias línguas, terras altas, frondosas floresta e quentes savanas, este país apresenta, também, um grande contraste nos destinos e meios económicos da população. O Quénia é um dos países com maior grau de disparidade entre as populações no que se refere à riqueza e somente o Brasil o ultrapassa nesta terrível situação.


Nairobi, a capital do Quénia, é uma bela cidade como qualquer outra grande cidade do mundo, Nova Iorque, Washington, Londres, Kuala Lumpur, Los Angeles, Lisboa, São Francisco, Paris, Johannesburg, Kampala, Estocolmo, Tóquio etc. Nairobi possui uma história rica e movimentada desde o século XIX. É uma bela cidade com todas as facilidades do mundo moderno, um aeroporto internacional, empresas modernas e bancos internacionais, companhias de seguros, empresas de comércio e fábricas e muitas infra-estruturas que permitem um largo leque de negócios. É, também uma cidade de contrastes: acolhe enormes e terríveis bairros de lata onde as condições de vida são do mais degradante que se pode imaginar. Por exemplo, o maior bairro de lata em África é o de Kibera, em Nairobi. Aí residem mais de um milhão de pessoas em condições de extrema pobreza e sem quaisquer recursos, sobrevivendo com menos de um dólar por dia.
Nairobi possui um dos mercados de capitais com maior taxa de crescimento do mundo. Nela habitam pessoas de várias nacionalidades no seio de um ambiente hospitaleiro.O índice de riqueza é bastante grande. No entanto, mais de metade da população vive nos sujos e degradados “slums” ou bairros de lata.O Quénia é um paraíso turístico cheio de luxuosos e modernos hotéis, restaurantes e prósperas empresas como a Safaricom, subsidiária da British Vodafone, no campo das telecomunicações.A Bolsa de Valores de Nairobi, (NSE) acolhe grandes empresas e investidores tanto do Quénia como estrangeiros.É de facto uma terra de contrastes.Em Nairobi encontramos a sede do governo e o parlamento. Alguns membros do parlamento são dos que recebem melhor remuneração em todo o mundo.Uma das grandes obras do ultimo parlamento, que foi dissolvido pelo presidente no passado mes de Outubro, foi o revolucionário Fundo de Desenvolvimento da Assembleia Eleitoral. Mas de que serviu essa “revolução”? Até agora, para encher os bolsos de muitos membros do parlamento e dos seus amigos.

Dizem que o Quénia é uma terra de oportunidades, embora repleto de desafios a nível político, económico e social.

O turismo tem a reputação de ter um enorme potencial para acabar com a pobreza que aumenta. Então, com tanta beleza e maravilhas porque razão é que o Quénia possui menos turismo do que a França, por exemplo? Culpa-se o governo e a sua política, as pobres infra-estruturas,os problemas políticos do passado etc…
A pobreza é o pesadelo de um país, mas um pesadelo acordado.Porquê tanta pobreza no meio de tanta oportunidade? É deveras um estranho e contrastante fenómeno!

Nairobi possui os seguintes bairros de lata ou “slums” ;Kibera,  Mukuru kwa Reuben, Mukuru kwa Njenga,n Mukuru kwa Maina, Mathare, Kitui Ndogo, Mathare, Kangemi, Kware
(ongata Rongai) etc.  Estes bairros de lata, favelas ou “slums” como queiram chamar são o espelho  da maior degradação humana do mundo. Falta de alimentos, falta de facilidades sociais, falta de espaço, falta de privacidade, falta de esperança, enfim falta de tudo!

A população dos “slums” vive em condições infinitamente piores do que se vivesse no meio da selva.

Uma visita a um dos “slums”, Kitui Ndogo, revela alguns aspectos terríveis senão patéticas condições de vida. Foi preciso uma “filantropa” portuguesa, Laura Vasconcellos, ver com os seus próprios olhos de que modo terrível e patético vivem as populações dos “slums”, isto num país famoso pela sua vida selvagem, pelos campeões de atletismo com uma democracia nascente, país que deu ao mundo alguns dos melhores cérebros em vários campos e que possui uma população trabalhadora no país e na Diáspora.

Laura Vasconcellos Presidente da ADDHU uma ONG Portuguesa que se dedica a trabalho humanitário internacional, visitou o país em Outubro numa missão de reconhecimento e levantamento de prioridades no campo da ajuda humanitária, missão essa organizada pelo seu parceiro local a CYCA, Capital Youth Caucus Association (CYCA) dirigida por Mr. Armstrong
O'Brian Ongera,Jnr. que a levou em visita ao slum  Kitui Ndogo entre outras regiões do país.

O que ela viu por certo a impressionou!

No dia 20 de Outubro de 2007, Laura Vasconcellos e Brian visitaram os “slums” e procederam à entrega de donativos aos orfãos e também entregaram pacotes de pensos higiénicos a mães adolescentes. No dia 28, Laura e Brian e alguns parceiros locais visitaram uma escola/orfanato em Kitui Ndogo e procederam à entrega de donativos para o apoio directo de crianças órfãs.

O que mais pode espantar muita gente no mundo desenvolvido é que no Quénia onde os membros do Parlamento vivem à larga, existem de facto pessoas nas suas 210 Assembleias Eleitorais, pessoas cujas vidas são tão miseráveis, completamente fora do alcance do estilo de vida dos MP e dois ricos num país pobre.

É preocupante a quantidade de doadores necessários para ajudar os “slums” de Nairobi, aldeias no Quénia, em África, na América Latina, na Ásia e em muitos outros países afectados por situações de extrema pobreza. Quantos donativos serão necessários para que, realmente, se possa tirar estas pessoas da miséria? A quantos doadores ousaremos pedir? Quantos CDF's provavelmente? De quanta educação gratuita precisaremos? De quanto apoio por parte das Nações Unidas? De quanto apoio por parte da União Africana?

Ás  Lauras e O'Brian Ongera's deste mundo desejamos o melhor.

Pensamos que o mundo precisa de mais gente como eles, muitos mesmo! Mas se os sistemas políticos e económicos fossem mais justos o mundo seria melhor!

Juntos, conseguiremos!
Sinceramente
Da CYCA Office of Humanitarian Assistance Coordination
Para Armstrong O’Brian Ongera Junior.

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Líderes "SEM TERRAS" de Mato Grosso vão morrer de empreitada!

Artigo de Clóvis Cardoso

Hoje (10/09), durante uma reunião do Diretório Estadual do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) de Mato Grosso, encontrei-me com um velho amigo de lutas em defesa dos trabalhadores rurais que há muito não via. Trata-se de Manoel Ferreira dos Santos, o “Manoel da Prelazia”, líder camponês do “Vale dos Esquecidos”, a região do Araguaia de Mato Grosso.

“Manoel da Prelazia” tem esse apelido em razão de sempre estar lado a lado com a Prelazia do Araguaia e de seu líder, o Bispo Dom Pedro Casaldáliga, ou apenas “Pedro” para os trabalhadores, junto ao qual enfrentou jagunços, latifundiários e ditadura em defesa do trabalho e da reforma agrária.

Com alegria abracei o velho companheiro, que me apresentou outro líder camponês do Araguaia, o trabalhador Antonio da Penha Xavier, mais conhecido por “Serafim”. Disseram-me que estavam naquela reunião do PMDB com a finalidade de entregar uma carta ao Deputado Federal Carlos Bezerra, cujo conteúdo trazia a denúncia que estavam marcados para morrer. Eram seis pais de família. Um, o João Maffei, já foi executado no dia 29/12/2006, com cinco tiros, na frente da mulher e dos três filhos menores, quando saía da igreja.

Segundo a denúncia assinada, o Prefeito de Bom Jesus do Araguaia, Hercolis Martins, teria contratado o pistoleiro conhecido por “Demá” para matá-los. Valor da pistolagem: R$.60.000,00 (sessenta mil reais).

A contratação da morte dos líderes camponeses foi anunciada pelo Vereador de Bom Jesus do Araguaia, João Miguel. Toda a cidade de Bom Jesus do Araguaia sabe que essas mortes estão encomendadas. Só falta o dia e a hora.

O motivo desse conflito é o fato de que o Prefeito Hercolis Martins grilou terrras da União, no “Projeto de Assentamento Massif”, que deveriam estar nas mãos de trabalhadores rurais.

Essa denúncia já foi feita ao Ouvidor Agrário Nacional, Desembargador Gersino José da Silva Filho, e à Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso. Os trabalhadores não afirmam que não existem providências tomadas para impedir o assassinato.

A MORTE EMPREITADA DE JOÃO MAFFEI

Bom Jesus do Araguaia, Mato Grosso, sexta-feira, 29 de dezembro de 2006.  O “sem-terra” João Maffei saía da Igreja Evangélica Assembléia de Deus, às 21:00 horas, acompanhado pela esposa Edivan e pelos filhos Ana Maria, 11 anos e, segurando pelas mãos, Ruth Mara, 09 anos e João Miquéias, 06 anos.

Próximo à sua casa de trabalhador, dois pistoleiros encapuzados surgem do matagal de um terreno baldio e disparam repetidas vezes contra seu corpo. João Maffei, “após ser alvejado...saiu correndo agarrado nas mãos de seus dois filhos” caindo a cerca de seis metros. Os pistoleiros montam em uma motocicleta e vão focar o farol sobre o corpo do líder camponês para confirmar o “serviço”.

A cidade de Bom Jesus do Araguaia comenta que a morte do “sem terra” João Maffei foi encomendada pelo Prefeito Hercolis Martins. (Depoimento da esposa de João Maffei)

Antonio da Penha Xavier, o “Serafim”, fez a acusação formal contra o Prefeito Hercolis Martins, durante seu depoimento na Delegacia de Polícia de Ribeirão Cascalheira.

Não se conhece qualquer ato dos poderes públicos para impedir essas mortes.

Clóvis Cardoso

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A situação no Zimbabué: a mulher africana, que vida?

“Parece que continuamos a ver o mesmo «filme» vezes sem conta...e outra vez…mais uma vez....e mais uma vez...Bem, eu recuso-me a vê-lo, mais uma vez, silenciosamente e de boca fechada. Será isto «África» como muitos dizem? Não pode ser assim tão «simples»! E as pessoas? As crianças, as mulheres, os homens? Ajudamos na medida do que nos é possível e permitido, mas ficar calados, encolher os ombros e dizer «Ah isso é África!» isso não!

As Nações Unidas crescem, mas os problemas que supostamente deviam resolver também aumentam, complicam-se e de resoluções pouco se vê: os americanos que pagam impostos contribuíram com $439 milhões para o orçamento regular das Nações Unidas – mais uma sede em Nova Iorque que a gestão das Nações Unidas quer aumentar.

Entretanto, o genocídio em Darfur continua e a 11 de Maio, o insaciavelmente bruto governo de Robert Mugabe do Zimbabué foi elevado pelas Nações Unidas para presidir a sua Comissão de Desenvolvimento Sustentável – lidando com o desenvolvimento económico, rural, da terra e do ambiente.

Surpreendida, a revista The Ecomist (19 de Maio) reportou que o Zimbabué, outrora conhecido por “o celeiro de África”, tem tido a sua agricultura “grandemente destruída pelas politicas catastróficas do governo”.

Este ano, foi a vez da África para liderar a Comissão de Desenvolvimento Sustentável, e os membros africanos das Nações Unidas apoiaram (como???) o governo de Mugabe para este posto.

Zimbabué é uma área de desastre. A Comissão do Estado Social, como foi publicado pelo The New York Times em 19 de Dezembro, descobriu que 63 por cento da população rural e 53 por cento da população urbana não tem acesso às necessidades básicas de comida.

Sob a ordem de Mugabe, a inflação, no Zimbabué, é a mais alta do planeta – mais de 2,200 por cento.

As nações africanas que votam para conceder a “legitimidade” do terrorismo do Mugabe contra a seu próprio povo fecham os olhos e consciências ao facto – como foi relatado pelo The Economist – de “todos os dias zimbabueanos desesperados atravessarem o rio Limpopo, enfrentando crocodilos e ocasionalmente afogando-se, para tentar a sorte na África do Sul. Encurralado na ilegalidade, lá, muitos são explorados e abusados.”

Entretanto, o libertador do Zimbabué do domínio branco até à presente terra assolada, está a planear uma campanha para 2008 para um período de seis anos adicionais e um museu (um “santuário”) aos feitos alcançados durante a sua vida: custará 4 milhões de dólares.

Mugabe vai ganhar certamente – se não for pela aclamação, será pela intimidação praticada há muito. Em Maio, por exemplo, ele proibiu os jornalistas zimbabueanos – aqueles que ainda se arriscam a espancamentos e prisão por denunciarem a verdade – de marcharem na comemoração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

Enquanto que as Nações Unidas elevam Mugabe para alertar o mundo de assuntos vitais do desenvolvimento sustentável, Christopher Dell, que está a terminar o seu cargo de três anos como embaixador dos Estados Unidos no Zimbabué, deu o seu parecer à rádio pública nacional, do inferno que Mugabe criou:

“A metáfora que tenho é que é como um lago. E enquanto as águas descem, mais e mais peixe é deixado na lama a morrer. No centro, os peixes maiores nadam à vontade e fazem fortunas enormes, fortunas enormes.”

A metáfora torna-se realidade: e Erik German, do Newsday, escreve das Cascatas de Vitoria no Zimbabué:

“Algumas milhas a sul destes hotéis luxuosos vazios neste deslumbrante ponto turístico, dezenas de homens novos, magros, sobrevivem ao recolher comida na lixeira da cidade. Alan Sibanda, 23 anos, tem vindo aqui...nos últimos cinco anos, brigando com babuínos e abutres pelos pedaços menos estragados. Desde o meio do Verão que o lixo é a sua principal fonte de comida.”

Os membros das Nações Unidas, que votaram a homenagem de Mugabe ao colocarem-no como representante da Comissão do Desenvolvimento Sustentável, certamente não se preocuparam em entrevistar Sibanda antes da votação final.

Para exceder a desgraça actual (e crónica) das Nações Unidas, adivinhem quem são os novos representantes da Comissão de Desarmamento das Nações Unidas? A presidir está a Síria, terra abundante em fábricas de armas de guerra—seguido do, acreditem ou não, Irão, o prospecto líder a rebentar a sua região do mundo.

Tendo este fogo vivo orgulhoso da destruição nuclear se tornado segundo no comando da Comissão de Desarmamento é como suspender Jack Abramoff da prisão para preencher as vagas do Banco Mundial.

Numa das várias edições “As tuas Nações Unidas em Trabalho”, o Jornal Wall Street disse: “É uma vergonha que os Estados Unidos não tenham respondido ao resultado destas duas eleições para a `liderança` (incluído o Zimbabué para liderar a Comissão de Desenvolvimento).

Onde estará o sonho de Eleanor Roosevelt das Nações Unidas a servirem como um farol dos direitos humanos?  

O Impacto nas Mulheres        

É um pouco como ver uma tragédia a desenvolver-se na televisão. Pode ver-se a situação e avaliar a seriedade até um certo ponto, mas não se pode entrar na experiência daqueles em campo ou compreender na totalidade a sua situação. Ao longo do tempo também se fica habituado a várias situações – estas parecem acontecer tão frequentemente e eventualmente desliga-se a televisão ou muda-se para entretenimento.

Mugabe já está no poder há 26 anos. Depois de 5 anos de um desenvolvimento rápido e empolgante e mudanças, o pais passou durante um período de dez anos experiências mistas – algumas más, outras boas - seguidas de uma década de graves erros e crescimento da corrupção em todas as áreas da vida. Desafiado pela sociedade civil Mugabe retirou-se numa pequena vedação politica e simplesmente recusou-se a ouvir alguém que não fosse os delatores que o rodeavam.

Mas há outra dimensão para esta fábula que não está a ser contada. Isto é, qual é o impacto em certos sectores da população? Não dos agricultores brancos- que tem sido explorada pelos media que parecem ver pouco mais na tragédia de Mugabe, como esta série é chamada. Não, refere-se o impacto em outros – nas mulheres por exemplo.

O impacto da crise de Mugabe nas mulheres é talvez o que diz mais das consequências deste tipo de situações, e no entanto, é quase completamente ignorado. Se se considerar alguma das medidas pela qual a crise de Mugabe pode ser medida em termos humanos, em vez de económicos ou políticos, o impacto nas mulheres tem sido muito maior do que na população em geral. Em parte, isto é devido a factores culturais, mas a adicionar as mulheres são apenas tanto mais vulneráveis ao colapso económico e social.

Olhemos apenas para alguns destes factores. Primeiro há a questão da esperança de vida. É uma medida rude do sucesso ou do fracasso de um Estado – pode garantir uma esperança de vida mais longa (como resultado de melhor nutrição, assistência médica ) do que no passado?

A resposta no Zimbabué é que a esperança de vida regrediu um ano todos os anos que Mugabe esteve no poder e que toda esta regressão aconteceu nos últimos 14 anos. Zimbabué, agora, tem uma esperança de vida menor do que Malawi. Para as mulheres a situação ainda é pior cuja esperança de vida desceu abaixo dos 30 anos. As razões são múltiplas – a deterioração da nutrição, os custos elevados dos alimentos proteicos, a deterioração dos serviços médicos e os seus custos. Mas a isto devemos adicionar o reaparecimento de epidemias, que em tempos julgamos vencidas – malária, tuberculose.

Depois, há a pandemia da Sida/HIV – Zimbabué está na frente desta esfera outra vez. Tem uma das taxas de infecção mais alta do mundo, alta mesmo dentro de padrões africanos. Mas um dos valores estáticos na minha cabeça – que 58 por cento de todas as mulheres entre os 15 e os 25 anos são seropositivas – quase 6 em 10. Porquê? Bem, uma das coisas que Mugabe tem feito na última década é criar condições quase perfeitas para a propagação do HIV e da Sida. Ele destruiu empregos, oportunidades de ganhar salário, e aumentou a insegurança de quase toda a gente, estimulou a migração laboral ao ponto de se ter tornado um passatempo nacional. Traduzido de modo ilegal, o salário, é a possibilidade de ganho de milhões.

Então, mais mulheres que nunca estão se a prostituir, ou em “relações temporárias” por segurança ou questões de dinheiro. Mais famílias estão divididas e separadas. O custo da escolaridade inchou – a chamada  “educação gratuita” custa, agora, aos pais mais do que eles podem pagar e então são as raparigas que perdem. O que faz uma rapariga de 13 anos quando é expulsa da escola e é lançada nas ruas?

Como medimos a qualidade dos serviços de saúde? Uma medida simples é o estado das mulheres no partos. Há 400 000 mulheres a dar à luz todos os anos. Este pais tem agora a maior taxa de mortalidade no parto no mundo. E quanto custa salvar a vida de uma mulher em parto? Mais ou menos 30 dólares americanos.

Depois há coisas mais simples – como pensos higiénicos e fraldas. O que fazes quando não podes pagar estas simples coisas de todos os dias. Usas farrapos ou toalhas sujas ou jornais velhos? Onde está a dignidade nisto?

E água limpa - em cidade atrás de cidade, água limpa acessível tem-se tornado um pesadelo, quando as bombas se quebram e os conselhos ficam sem químicos. Os homens bebem cerveja e coca cola, são as mulheres e as crianças quem sofre as consequências destes fracassos.

Na independência eles celebram - educação gratuita para todos, habitação para todos, serviços de saúde para todos até ao ano 2000. A realidade é que nenhum destes foi alcançado, de facto a população perdeu vantagens em todas estas áreas num colapso auto imposto que teve um maior impacto nas mulheres e nas crianças. Os que conduzem carros luxuosos com janelas fumadas e que vivem em mansões à custa do dinheiro de outras pessoas devem assumir a principal responsabilidade por isto, mas também é uma desgraça para todos nós. Se não participares nesta luta pela mudança e reforma do Zimbabué, então também tu és responsável por esta continua crise e o seu impacto em milhões de mulheres e crianças.

Olha só para isto: aconteceu do desespero...

 

 

 

 

 

 

 

Centenas de zimbabueanos invadem escola primária em busca de diamantes

31 de Maio, 2007, 7:59 GMT

Harare/Johannesburg – Centenas de residentes do empobrecido subúrbio Harare de Epworth invadiram uma escola primária local depois de rumores de que tinham sido descobertos diamantes no recreio, dizem reportagens na quinta-feira.

Os perseguidores da fortuna, armados com picaretas e pás, alguns transportando bebés nas costas, interromperam aulas, destruíram um muro de segurança na Escola Primária de Chinamano e escavaram os terrenos numa busca frenética por pedras preciosas , disse o jornal Herald que é controlado pelo estado.

Mas todo o que encontraram foram pedaços de quartz, de acordo com o relato.

Os supostos perseguidores de diamantes foram incentivados por recentes histórias de povoações desesperadamente pobres, no distrito de Marange do Leste do Zimbabué, que se tornaram ricas, de um momento para o outro, devido ao descobrimento de diamantes verdadeiros.

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Despejos e demolições forçadas em Luanda

Pessoas despejadas no bairro Cambamba I© 2006 Paula Martins/Human Rights Watch

A pesquisa da Human Rights Watch e SOS Habitat apurou que, entre 2002 e 2006, o Governo de Angola levou a cabo pelo menos 18 despejos em massa envolvendo violência e utilização excessiva da força, em violação das suas obrigações internacionais e nacionais. Para além disso, o Governo não respeitou as salvaguardas processuais consagradas no direito internacional e interno nem concedeu uma indemnização adequada. O Governo ignorou as consequências humanitárias dos despejos, particularmente sobre grupos vulneráveis como as mulheres e as crianças. Não apurou também se os moradores tinham direitos sobre as suas terras ou habitações, e que direitos eram esses, antes de proceder ao seu despejo. Os despejos envolveram frequentemente intimidação, bem como violência e destruição desnecessárias, que originaram por vezes reacções de confronto com as pessoas que perderam as suas casas e os seus bens. Os moradores foram sujeitos a “despejos surpresa” traumatizantes, em que foram apanhados desprevenidos pela chegada não anunciada da polícia, dos bulldozers e dos camiões. Estes “despejos surpresa” são ilícitos à luz do direito internacional.

Intimidação e violência

Utilização excessiva da força

As vítimas de despejo entrevistadas pela Human Rights Watch declararam terem sido sujeitas a manobras de intimidação e ameaças por parte de agentes policiais fardados e de fiscais da administração provincial e municipal. Pessoas despejadas do bairro de Wengi Maka, por exemplo, disseram à Human Rights Watch que os polícias “passaram dizendo ‘vocês são atrevidos, nós vamos partir mais essas casas.’ “Eram muitos…os carros da polícia estavam cheios. A gente nem podia contar naquela confusão…a gente só via poeira por todo o lado, homens a serem batidos, gente atirada nos carros da polícia, tiros…era como na guerra civil. Eles vieram de manhãzinha e cercaram o bairro todo.”

Existem denúncias de que, em muitas operações de despejo e demolição, os funcionários públicos (funcionários da administração municipal e provincial acompanhados por agentes policiais) responderam violentamente aos moradores que tentaram questionar os fundamentos com base nos quais estavam a ser despejados e as suas casas demolidas. Pessoas despejadas de Soba Kopassa e Cambamba I disseram à Human Rights Watch:

Em Junho 2005 eles vieram nos demolir. Eu fui pedir explicações e bateram-me com a coronha da arma. O meu marido, quando chegou disse: “estão a partir a minha casa, onde é que eu vou viver agora?” Eles atiraram para o assustar…Aqueles que diziam alguma coisa apanhavam. Ninguém podia dizer nada naquela altura. Só podia olhar, ficar ali e deixar passar…”

Em seis dos bairros onde a Human Rights Watch e a SOS Habitat documentaram operações de despejo (Cambamba I, Cambamba II, Soba Kopassa, Bairro da Cidadania, Benfica e Wengi Maka), muitas das pessoas sujeitas a despejo declararam ter sido fisicamente maltratadas por polícias fardados que utilizaram diversas armas, incluindo cabos de vassoura, bastões, coronhas de armas e pistolas e catanas: “Eu fui retirar a minha mulher e criança da casa. Saímos abraçados e eles bateram-nos. Continuaram a bater-nos com coronhadas, empurraram-nos e atiraram-nos no chão. No fim tinha 8 polícias a bater-me e na esposa também e segurávamos o bebé de um ano. Jogaram-me no carro da polícia… Bateram-me com pau de vassoura na esquadra…Disseram que nos iam dar 30 catanadas a cada um, 15 na mão e 15 no rabo.”

O direito internacional exige que os funcionários responsáveis pela aplicação da lei apenas utilizem armas de fogo em casos de grave perigo e quando não estiverem disponíveis outros meios menos gravosos para alcançar os mesmos objectivos. Nos despejos analisados para este relatório, contudo, agentes policiais transportando espingardas de assalto semi-automáticas AK47 apontaram as suas armas a indivíduos desarmados, incluindo crianças e idosos, gesticulando de forma agressiva, imediatamente depois de chegarem aos locais de despejo e durante o processo de demolição e desocupação.

Eu tentei me defender. Avancei com a minha neta no colo na direcção do polícia. Ele apontou [a arma] para mim. Eu disse “quer disparar isso? Quer me matar? Pode me matar.”

Enquanto levavam a cabo os despejos, elementos da Policia Nacional, elementos da Polícia Fiscal, bem como agentes de uma empresa de segurança privada, dispararam contra a multidão de moradores, deram pontapés e agrediram pessoas com armas e chicotes. Uma criança de 4-5 anos ficou gravemente ferida por uma bala no joelho esquerdo e teve de ser transportada para o hospital. Outro dos casos foi o de três mulheres que foram espancadas durante a captura (uma das quais, grávida de oito meses, foi pontapeada no abdómen, provocando-lhe uma hemorragia), bem como o de um jovem repetidamente chicoteado durante a captura que continuou a ser espancado na esquadra de polícia.

Em Junho de 2004, um homem foi alvejado na cabeça por agentes policiais durante um despejo do bairro de Wengi Maka, resultando em graves incapacidades motoras e da fala.

V.L descreveu o sucedido:

“Nós fomos lá ver o que estava a passar na área em que começaram as demolições. Na volta cruzámos com elementos da polícia. Quando estávamos a uns 50 metros de distância os homens começaram a dizer que nos éramos agitadores e atiraram. Eram três homens [a vítima identificou os três polícias pelo primeiro nome ou pela alcunha por que são conhecidos]. O [nome omitido] começou e atirou e depois os outros. Levei três tiros na perna direita. O povo veio e os polícias fugiram. As pessoas nos levaram para o hospital e eu fiquei lá uma semana.

Muitas vítimas de despejo, bem como pessoal de ONG internacionais e nacionais e funcionários das Nações Unidas, disseram à Human Rights Watch que agentes de segurança privada de uma empresa chamada Visgo estiveram presentes durante os despejos em Cambamba I e II a 13 de Março de 2006.

Segundo o Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas em Angola, “os indivíduos fardados e armados identificados como membros da empresa de segurança privada Visgo utilizaram as suas armas de fogo pesadas (AK47) contra a população e participaram juntamente com a polícia em vários actos de violência contra os moradores”.

Nos termos das normas e princípios de direito internacional, o Governo de Angola é responsável pelos abusos de direitos humanos cometidos por sujeitos privados e tem a obrigação de “garantir que as medidas legislativas e de outra natureza são adequadas para prevenir e, sendo caso disso, punir as desocupações forçadas levadas a cabo, sem salvaguardas adequadas, por pessoas ou organismos privados.”

Detenção arbitrária e maus tratos à guarda da polícia

Nos termos do direito internacional, ninguém pode ser privado de liberdade a não ser por motivo e em conformidade com processos previstos na lei. Qualquer pessoa detida tem de ser informada, no momento da detenção, das razões da mesma e será prontamente informada de quaisquer acusações formuladas contra si. O artigo 39.º da Constituição de Angola consagra a mesma disposição.

Nos termos da legislação angolana, as pessoas só podem ser presas preventivamente se apanhadas em flagrante delito, se existirem razões para supor que a pessoa possa fugir ou prejudicar uma investigação policial, ou se existir uma suspeita forte e fundamentada de que a pessoa cometeu um crime punível com pena de prisão superior a um ano.

 A Human Rights Watch entrevistou vítimas e testemunhas oculares das detenções de mais de 50 moradores, as quais não respeitaram as normas jurídicas acima referidas. Estas detenções ocorreram durante ou imediatamente após despejos realizados em Cambamba I e II, Banga We, Bairro da Cidadania, Benfica, Wengi Maka, Maria Eugénia Neto e Soba Kopassa.

A Human Rights Watch entrevistou uma mulher despejada de Wengi Maka que, em 2004, foi detida com os seus quatro filhos, que tinham respectivamente oito anos, seis anos, dois anos e seis meses de idade. A mulher e o seu marido estavam a reconstruir a sua casa, que tinha sido demolida dois anos antes, quando agentes policiais chegaram e lhes disseram que tinham de se ir embora. Os agentes partiram após uma acesa discussão que envolveu outras pessoas presentes no local e durante a qual dispararam para o ar. A polícia regressou algumas horas mais tarde. Não tendo encontrado o homem, levaram a mulher e as crianças para a 33.ª esquadra policial da V Divisão e disseram-lhe que só seria libertada quando o seu marido se apresentasse. A mulher não foi acusada nem informada de qualquer crime que pudesse ter cometido e parece ter sido mantida como refém para garantir o acesso ao homem. A família dormiu três noites numa cela. As três crianças mais velhas passaram períodos sozinhas, enquanto a mãe era libertada com o bebé uma vez por dia para ir a casa preparar as suas refeições. A criança de oito anos disse à Human Rights Watch: “Teve tiro…eu dormi no chão dentro da cela com cadeado. Era só eu e os irmãos…Ficávamos sozinhos lá quando a mãe ia buscar comida.” A mulher e as crianças acabaram por ser libertadas três dias depois, na sequência de reclamações da comissão de moradores de Wengi Maka.

Durante uma operação de despejo em Junho de 2005 em Soba Kopassa, um agente policial bateu com a coronha da sua arma num homem vítima de despejo que exigia explicações para a desocupação forçada. O polícia obrigou-o a entrar num veículo policial e levou-o para a esquadra de polícia de Vila Estoril. O homem permaneceu aí duas noites e foi então libertado com a ajuda da SOS Habitat. Não lhe foi comunicado o motivo da detenção nem foi formalmente acusado de qualquer crime.

Muitas outras vítimas de despejo declararam terem sido espancadas com a parte plana/lateral de catanas: Eu e mais três pessoas fomos levados para a esquadra da polícia mais próxima. Bateram com porrete num quartinho. Eu fui libertada porque tinha crianças para cuidar. Mas os homens dormiram lá.

Destruição e perda de propriedade privada

No decorrer da maioria dos despejos investigados pela Human Rights Watch e SOS Habitat, os funcionários públicos e agentes policiais interferiram de forma pouco razoável na privacidade das pessoas tomando medidas desproporcionadas como a destruição de bens pessoais. Os relatos das vítimas de despejo indicam que as acções do Governo durante estes despejos foram excessivas e causaram danos evitáveis nos seus bens pessoais e meios de sustento. Muitas pessoas declararam terem sido ameaçadas ou espancadas por agentes policiais quando tentavam retirar os seus bens das suas casas antes de os bulldozers as demolirem. Outras vítimas de despejo disseram à Human Rights Watch que os funcionários municipais e provinciais e os agentes policiais que levaram a cabo os despejos não lhes permitiram esvaziar as suas casas. Uma pessoa despejada de Cambamba II relatou a sua experiência com agentes policiais a 13 de Março de 2006:

Eles chegaram e não conversaram com ninguém…E partiram as casas…Não avisaram ninguém…Não deu tempo de nada…não deu tempo de tirar nada. Partiram a minha cama, fogão, pisaram tudo. Estava a tirar as coisas e me meteram no carro da polícia…A casa era de bloco.

Os moradores mais idosos, as mulheres e mesmo as crianças que não tiveram os meios ou a capacidade para retirar objectos maiores ou mais pesados, como camas e fogões, perderam tudo. Uma mulher contou à Human Rights Watch que, quando viu a polícia e os bulldozers, correu para proteger os seus filhos e deixou tudo para trás: “Ficámos só com as roupas do corpo.”

Perseguição de activistas de Associações Cívicas

Os agentes policiais também intimidaram membros de organizações de direitos humanos que testemunharam as operações de despejo. Segundo uma jornalista presente durante o despejo de 13 de Março de 2006 em Cambamba:

Eu cheguei depois das primeiras demolições desse dia…Eu estava lá com o Luiz Araújo da ONG SOS Habitat e dois representantes dos direitos humanos das Nações Unidas. A polícia falou de forma muito agressiva para eles os três.

O director da SOS Habitat, Luiz Araújo, foi preso durante despejos levados a cabo na área de Cambamba I, Cambamba II e Banga Wé, em 24 de Novembro de 2005.

O activista da SOS Habitat Rafael Morais foi detido a 5 de Maio de 2006, no decorrer de um despejo no Bairro da Cidadania. Foi detido por membros do Comando da Unidade de Protecção dos Objectivos Estratégicos (CUPOE) quando tentava explicar os direitos dos moradores. Acusaram-no de ser um “agitador” e levaram-no para a administração municipal. Durante o período de detenção, mantiveram-no descalço e sem camisa. Foi libertado mais tarde, nesse mesmo dia, depois de uma intervenção de pessoal das Nações Unidas e de um advogado da Ordem dos Advogados de Angola.

Luiz Araújo foi à esquadra de polícia para saber informações sobre a detenção do seu colega e, enquanto estava na esquadra foi também detido e levado para o comando da V Divisão.

"Casas assinaladas para demolição pelo Governo Provincial em Mbondo Chape..”

Aviso prévio insuficiente

Embora o direito internacional não prescreva um prazo concreto para aviso prévio dos despejos, o Relator Especial da ONU sobre Alojamento Suficiente recomendou a existência de um prazo mínimo de 90 dias antes do realojamento. O prazo geral previsto na lei angolana para a notificação aos indivíduos de quaisquer decisões da administração pública é de, no mínimo, oito dias.

Na maioria dos despejos investigados pela Human Rights Watch e SOS Habitat, o Governo não efectuou qualquer notificação formal antes da chegada dos funcionários municipais e das forças policiais para levar a cabo as operações de despejo. Os bulldozers começaram a demolir as casas e a destruir as colheitas logo que chegaram e sem qualquer aviso prévio. Muitas das vítimas de despejo não estavam presentes quando as suas habitações foram demolidas e quando regressaram a casa encontraram apenas os destroços daquilo que costumavam ser as suas casas:

Quando chegaram não disseram nada; não pediram documentos. Só partiram as casas. Não trouxeram mandato [ordem de tribunal ou autoridade competente] nem tinham enviado notificação.

Eu fui ao serviço e quando vim tinha a casa partida. Só alguns vizinhos conseguiram salvar a chapa que cobria a casa. Tudo o que estava dentro foi partido…eu reconstruí um abrigo com os restos da casa.

Indemnização desadequada

Segundo o Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais da ONU, os Estados Partes no PIDESC deverão assegurar-se de que todo o indivíduo tem direito a uma indemnização adequada por qualquer bem, móvel ou imóvel, que lhe pertença e seja afectado pela ordem de despejo. A legislação angolana também obriga o Estado a indemnizar. As normas jurídicas internacionais e nacionais não definem com precisão o que constitui uma indemnização “adequada” pelo despejo, ou que forma esta pode assumir. Nos países de direito românico, como Angola, os Governos concedem em geral uma indemnização monetária, uma indemnização em espécie (habitação ou terreno alternativo, material de reconstrução, etc.) ou uma combinação de ambas. Um perito em legislação fundiária angolana confirmou à Human Rights Watch ser prática comum em Angola em termos legais que as autoridades atribuam terrenos ou habitações alternativas em vez de dinheiro como forma de indemnização às famílias despejadas das suas terras ou residências. Este perito observou que o pressuposto subjacente à indemnização é a criação de uma situação tão próxima quanto possível da situação existente antes do despejo. Segundo a informação recolhida pela Human Rights Watch e SOS Habitat, na maioria das situações o Governo angolano concedeu algum tipo de indemnização, mas sem a aplicação de um procedimento uniforme para determinar a sua forma ou o seu montante. Contudo, muitas pessoas despejadas não receberam qualquer indemnização:

A gente quer expor a situação. Se o Governo quer o terreno, que indemnize os custos de compra e regularização ou dê outro local decente para viver, onde tenha escola e hospital. Não estamos a exigir este terreno mas o nosso prejuízo; os nossos direitos.

Nunca teve indemnização, nem uma saca de cimento, nada.

Ausência de determinação dos direitos dos moradores

Nos despejos em massa pesquisados pela Human Rights Watch e SOS Habitat, o Governo não determinou se as pessoas tinham qualquer título formal ou outro direito legal à terra antes de as despejar.

Para além de ser ilegal, também não é razoável fazer depender os devidos procedimentos de expropriação e indemnização da existência de títulos formais numa cidade onde a informalidade é tão predominante e onde o Governo não garante há décadas um mecanismo de registo predial eficaz e acessível.

Despejos repetidos das mesmas áreas

No período compreendido entre 2002 e 2006, muitas áreas habitacionais de carácter informal testemunharam despejos repetidos em diferentes momentos. Muitas famílias, que não tinham para onde ir após as primeiras operações de despejo e reconstruíram os seus abrigos na mesma área, foram novamente despejadas mais tarde.

Nos bairros das Cambambas, Banga We e 28 de Agosto, os moradores já enfrentaram seis operações de despejo; no Bairro da Cidadania os moradores enfrentaram cinco operações de despejo. Estes bairros foram completamente demolidos, mas algumas das pessoas despejadas permanecem nas áreas aguardando um realojamento adequado:

Consequências dos despejos

Abrigo inadequado imediatamente depois dos despejos

As normas internacionais de direitos humanos afirmam claramente que os despejos não devem levar as pessoas a ficar sem abrigo nem torná-las vulneráveis à violação de outros direitos humanos. O Comité dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais da ONU esclareceu que “caso os afectados sejam incapazes de prover às suas necessidades, o Governo deverá tomar todas as medidas apropriadas … para assegurar a disponibilização de uma adequada habitação alternativa, reinstalação ou acesso a terrenos produtivos, conforme o caso.” Em muitas das situações estudadas pela Human Rights Watch e SOS Habitat, os despejos resultaram em privações e em alguns casos deixaram as pessoas sem abrigo. Uma pessoa despejada disse à Human Rights Watch:

Eram umas 300 e tal famílias. Vieram [para o local de realojamento] por etapas. Alguns foram trazidos por camião; outros tiveram que alugar carro. Alguns tiveram as casas partidas e viveram ao relento por um mês até vir [para] aqui. As pessoas não queriam vir para cá, foram obrigadas porque não tinham para onde ir.

Não estava aqui quando destruíram a lavra. Não sobrou nada...Não tem como comer, onde trabalhar. Quem vai me dar emprego com esta idade?

Pessoas despejadas de Cambamba II vivendo em barracas depois de uma série de operações de despejo em que demoliram as suas residências originais. © 2006 Paula Martins/Human Rights Watch

O governo provincial deu parcelas de terreno vazias em áreas de realojamento a algumas pessoas despejadas de Onga. Estas pessoas afirmaram não terem recebido quaisquer materiais de construção para construir novas casas a fim de substituir as que foram destruídas, ou para a construção de abrigos de emergência. Viveram em barracas durante meses enquanto poupavam dinheiro para a construção:

Impacto no acesso ao emprego, aos cuidados de saúde e à educação

Na sua maioria, os indivíduos entrevistados pela Human Rights Watch que foram realojados haviam sido despejados de áreas no extremo sul da cidade e reinstalados na parte norte, a vários municípios de distância. A distância média entre o local de residência inicial e o local de realojamento era superior a 30 quilómetros, o que afectou o acesso das pessoas despejadas aos seus empregos, aos cuidados de saúde e à educação.

Uma pessoa despejada de Benfica e realojada em Panguila disse à Human Rights Watch que ainda hoje pode demorar três horas a chegar ao trabalho em Benfica. A mulher disse que, inicialmente, os transportes públicos só funcionavam em Panguila das 6 da manhã às 4 da tarde. Outra pessoa despejada disse à Human Rights Watchque, quando chegou a Panguila, saía do trabalho pouco depois das 6 da tarde e só chegava a casa cerca da meia-noite, porque a essa hora os candongueiros (transportes públicos informais em Luanda) não serviam Panguila.

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A violação constante dos direitos das crianças.

O escândalo global que representa a violência contra as crianças é uma história de horror por demais não contada. Com malícia e claras intenções, a violência é usada contra os membros da sociedade menos capazes de se protegerem: crianças na escola, nos orfanatos, nas ruas, nos campos de refugiados em zonas de conflito armado, em prisões e nos meios rurais e fábricas. Nas suas investigações no campo dos abusos dos direitos humanos em crianças, a Human Rights Watch chegou à conclusão que em todas as regiões do mundo e em quase todos os aspectos das suas vidas, as crianças são vítimas de uma violência sem qualquer consciência que muitas vezes é perpetrada pelos mesmos indivíduos que foram encarregados da sua segurança e bem estar.

As crianças também se encontram expostas a outros abusos dos direitos humanos quando existem milhões que não têm acesso à educação ou outras tantras forçadas a trabalhar horas a fio debaixo de condições perigosas, outras vêem-se obrigadas e pegar em armas e a matar, outras definham em orfanatos ou centros de detenção onde suportam condições de vida desumanas e sofrem diariamente agressões à sua dignidade.

Estes abusos persistem porque as crianças possuem poucos mecanismos para reportar violências e outros abusos dos direitos humanos. Muitas vezes calam-se com medo de represálias. E porque são crianças não são raras as vezes em que não as levam a sério. Mesmo quando dão o seu testemunho ou o abuso de que foram vítimas é exposto, aqueles que as vitimaram raramente são investigados e acusados. Muitos dos que se encontram numa posição em que têm o poder de agir são cúmplices dos abusos, como no caso das casas de prostituição infantil no Cambodja, mostram-se relutantes em acusar um colega e temem ser alvo de uma publicidade negativa. Adultos que testemunharam abusos por parte dos seus próprios colegas e tentam denunciá-los vêem-se sujeitos a ser despedidos por ter falado.

O ano de 2005 marcou o 15º aniversário da instituição da Convenção dos Direitos da Criança, um tratado que é uma marca na História e que, supostamente, garante o direito das crianças a serem livres de discriminação, garante-lhes protecção em caso de conflitos armadas, tortura e crueldade, tratamento desumano ou degradante bem como punição, e isentas de privação arbitrária da liberdade; tratamento pelo sistema judicial de acordo com a idade; livres da exploração económica e outros abusos e direitos. Conseguir o cumprimento destes direitos continua a ser um desafio. Os governos devem tomar medidas rígidas e acções no sentido de implementar o acordado na convenção e cumprir as promessas feitas às crianças do mundo.

As crianças soldado

Em Abril de 2002 chegou-se, em Angola a um acordo de paz. As crianças soldado que lutaram na guerra civil em Angola foram, no entanto excluídas nos programas de desmobilização. Tanto o governo como o maior grupo da oposição (UNITA) utilizaram crianças como soldados durante a Guerra. Estimam-se me cerca de 11,000 crianças as que estiveram envolvidas nos últimos 5 anos da luta. Algumas receberam armas e treino militar e lutaram no conflito. Outras, serviram para acartar material, cozinhar, espiar e laborar. Um ano após o termino do conflito em Angola, alguns soldados da UNITA com 18 anos ou mais foram incorporados no exército nacional ou na polícia. Alguns foram desmobilizados e receberam a assistência necessária. Mas muitas das crianças soldado que realizaram tarefas como se fossem adultos foram-lhes negados quaisquer benefícios ou ajuda. O uso de crianças soldado em Angola ou em qualquer outro país é contra a lei internacional. Angola e outros países onde as crianças foram usadas como soldados têm a obrigação de prover a reintegração dessas crianças afectadas pelo conflito.

Em dezenas de países as crianças tornaram-se participantes directos na Guerra. Negada a infância e muitas vezes sujeitas a situações de horrível violência, cerca de 300.000 crianças servem como crianças soldado em conflitos armados. E estes jovens combatentes participam em todos os aspectos e lidam com os sistemas de guerra. Carregam uma AK-47 e M-16 nas linhas avançadas de combate, servem como detectores humanos de minas terrestres, participam em missões suicida, carregam os mantimentos, actuam como espiões, mensageiros ou vigias.

Fisicamente vulneráveis e facilmente intimidáveis, as crianças são, em geral, soldados obedientes. Muitas são raptadas ou recrutadas à força, outras forçadas sob a mira de uma arma. Durante os conflitos as sociedades tendem a desagregar-se deixando as crianças sem escola, separadas da família, sem casa e muitas vêem no exército a melhor possibilidade de sobrevivência.

As crianças soldado foram e são usadas em mais de 30 países como Angola, Serra Leoa, Colômbia, Líbano, Libéria, Sudão, Uganda, Birmânia, Nepal etc… A Human Rights Watch entrevistou algumas dessas crianças e emitiu relatórios: forçadas a ver e a cometer atrocidades, sujeitas a violações e abusos de todas a espécie, muitas destas crianças eram forçadas a ingerir drogas de modo a vencer o medo e relutância no momento de matar.
As raparigas também são usadas como crianças soldado e para além dos seus deveres de combatentes são sujeitas a abusos sexuais.

Sob  a Convenção dos Direitos da Criança a definição de criança é a de qualquer pessoa que tenha menos de 18 anos, a não ser em casos em que a lei determine que a maioridade seja alcançada antes. No entanto, no artigo 38 que diz respeito às crianças e o conflito armado, a idade mínima para o recrutamento é de 15 anos o que provoca um baixo nível de protecção. Todavia, esforços são feitos e a idade mínima serão os 18 anos.

As diligências para acabar com o uso de crianças soldado crescem e é uma luta contínua. Para a resolução deste problema é necessário um maior e mais directo envolvimento da opinião pública, do cidadão comum que, juntamente com as ONG e outras entidades que lutam pelos direitos humanos, devem dar voz à sua revolta perante estas questões, como é o caso das crianças soldado, e impor a sua vontade através do poder que realmente detêm: dizendo NÃO, JÁ CHEGA! Escrevendo cartas aos dirigentes, às Nações Unidas, assinando petições, organizando conferências e debates, realizando manifestações, distribuindo informação e fazendo ouvir a sua voz sempre que a oportunidade surgir.

È que o recrutamento das crianças soldado continua em todo o mundo e os responsáveis por essa situação escapam à justiça e os governo chave continuam a resistir aos esforços para estabelecer e reforçar as proibições necessárias para o término do uso de crianças como soldados.


Em todo o mundo, um número desconhecido de crianças, mas certamente na casa dos milhões, são mantidas em orfanatos e outras instituições não-penais”. Muitas destas crianças são mantidas em instalações parcas em qualquer tipo de conforto e vivem em condições desumanas de tratamento; muitas são abandonadas para morrer.

Ironicamente, os responsáveis pela segurança e bem-estar dessas crianças muitas vezes abusam delas física e sexualmente e submetem-nas a outro tipo de cruel tratamento. Mesmo em instituições limpas e com boa qualidade de alimentação, o pessoal negligência as crianças, deixam-nas a morrer sozinhas em berços ou pequenas camas sem qualquer tipo de estímulo, brincadeira ou atenção.

Human Rights Watch observou este tipo de tratamento em crianças de orfanatos na Roménia, China e Rússia.

Durante o regime de Ceaucescu, na Roménia, em 1990 os médicos foram proibidos de adquirir informação médica do exterior e levavam a cabo a prática de administrar às crianças pequenas transfusões de sangue de modo a fortalecê-las. Infortunadamente, muitas dessas crianças contraíram o HIV. As crianças deficientes foram sujeitas a condições e tratamento desumanos e sofreram de má nutrição e doenças.  

Na China, Human Rights Watch relatou em 1996 um mundo secreto de fome, doença e mortes não naturais, um mundo onde milhares de órfãos chineses eram abandonados e acabavam por desaparecer. O relatório emitido “Morte por Abandono: uma política de negligência fatal nos orfanatos estatais da China” revelou um padrão de crueldade, abuso e maldade inconcebível e que resultou em níveis incríveis de mortalidade nas instituições estatais.

Na Rússia, as crianças eram abandonadas ao estado numa media de mais de 100.000 por ano. Num relatório de 1998 “Abandonados ao Estado: Crueldade e Negligência nos orfanatos russos” a Human Rights Watch informou sobre o tratamento brutal aplicado nessas crianças muitas das quais sofreram níveis de crueldade e negligência inconcebíveis. Espancavam-nas, eram fechados em locais gelados durante dias e muitas vezes mal tratadas pelo pessoal. Desde o momento em que o estado assume os cuidados dessas crianças, os órfãos da Rússia, 95% dos quais tem pelo menos um familiar próximo vivo são chocantemente maltratados. As crianças classificadas como deficientes são segregadas e colocadas em quartos onde permanecem deitadas e onde são alimentadas e limpas, mas sem qualquer tipo de atenção ou cuidados médicos. Aqueles que são tidos como “imbecis” ou “idiotas” aos quatro anos são enclausurados em armazéns e ali abandonados.

As crianças refugiadas sofrem duplamente isto porque são-lhes negados os seus direitos humanos pelo que se tornaram refugiados e como crianças sofrem frequentes abusos uma vez que são os mais vulneráveis entre os refugiados, por si só uma população extremamente vulnerável. Estas crianças não só sofrem por causa da Guerra ou outras formas de perseguição nos seus países de origem forçadas a abandonar as suas casas, mas muitas das crianças refugiadas continuam a sofrer o abuso de direitos humanos nos países que lhes deram asilo. Este é o caso, actualmente, dos refugiados birmanes, pertencentes às minorias étnicas visadas ao extermínio pela cruel Junta Militar que ainda governa aquele país. Metade da população mundial de refugiados são crianças: no entanto, os seus direitos e as necessidades de protecção especial como crianças são frequentemente negligenciados.

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A mudança de Mae Sot, conhecida como a “pequena Birmânia” da Tailândia.

O artista Maung Maung Tinn ilustra as caras dos prisioneiros birmaneses após um apreendimento pelas camionetas da policia.

Quando vou a Mae Sot vejo uma mudança gradual e lenta. Mas na minha última visita, depois de estar ausente quase oito meses, vi provas de crescimento rápido.

A qualquer sítio onde ia via casas novas, projectos de desenvolvimento da terra, restaurantes, estações de serviço, casas de hóspedes – até cafés com ligações à internet sem fio já ali chegaram.

Também vi novas construções e uma expansão de tendas à volta do escritório de imigração perto da Ponte da Amizade (Friendship Bridge) que liga a Tailândia e a Birmânia. As tendas abrigam centenas de emigrantes birmanes, muitos deles mulheres, à espera da deportação. Suspeito que isto não é uma visão invulgar em Mae Sot. Há alguns anos testemunhei um acontecimento importante em Mae Sot onde milhares de birmanes foram cercados e mandados de volta a Myawaddy. No entanto, conseguiram escapar e regressaram.

Tenho a certeza que este grupo também vai encontrar o caminho de volta a Mae Sot, apesar dos salários no mercado negro serem baixos – uma empregada doméstica recebe de 800 a 1,000 baht (menos de $50 dólares americanos) por mês.

Entre no Mercado de Mae Sot numa manhã qualquer e verá muitos birmanes a passear e a falar o seu idioma sem medo. Mae Sot ainda é a “Pequena Birmânia”

Fiz uma visita breve à clínica da Dra. Cynthia, conhecida por a Clínica de Mae Tao, perto do aeroporto. Ela tinha acabado de se reunir com os patrocinadores e disse-me que a clínica precisa de 50 milhões de baht (1.4 milhões de dólares americanos) este ano para cobrir as despesas e para tratar aproximadamente 100,000 pacientes que ela atende anualmente. Alguns patrocinadores que estiveram na reunião disseram-me que uma estimativa mais real dos valores seria de 75 milhões de baht (2.1 milhões de dólares americanos).

A clínica enfrentou uma séria diminuição de fundos em 2004, e a Dra. Cynthia e os seus médicos não querem passar pelo mesmo problema.

Mais de 300 funcionários do hospital estão a trabalhar nessa clínica, a tratar de pacientes da Birmânia e residentes locais birmanes. Reparei que muitos dos que me eram familiares de visitas anteriores - desde 1995 – tinham partido. Muitos médicos bem formados e talentosos emigraram para o Oeste em programas de assimilação. Funcionários novos e mais jovens juntaram-se à clínica da Dra. Cynthia. Um médico mais antigo disse-me que a geração mais nova a receber formação estava também à procura de emprego noutros países.

Isto representa uma crise séria para muitos grupos na fronteira - especialmente nos campos de refugiados, onde indivíduos bem formados e talentosos, professores, médicos e líderes da comunidade estão a partir para outros países. Encontrar substitutos é um grande obstáculo.

Cynthia, conhecida como a Madre Teresa da Birmânia, mantém o compromisso de proporcionar serviço médico e formação dos funcionários. Os oficiais do Ministério da Saúde da Tailândia em Mae Sot ajudam e admiram o seu trabalho e a sua dedicação.

A clínica desenvolveu-se bastante desde que abriu ilegalmente na Tailândia nos fins de 1988. Agora, esta reflecte muito a preocupação desse em cuidar de pacientes birmaneses com malária, tuberculose e outras doenças infecciosas como a SIDA. Agora a clínica está bem estabelecida e bem organizada com um número de médicos estrangeiros dedicados a trabalhar como voluntários.

Cynthia contou-me que a maior parte dos pacientes têm malária, apesar de o número de pacientes com SIDA em tratamento ter aumentado. Um projecto-piloto para tratar uma dúzia de pacientes com SIDA com drogas anti-retrovirais está agendado para Abril em associação com o hospital de Mae Sot. Patrocinadores individuais das nações ocidentais também têm oferecido apoio financeiro para pacientes com SIDA, mas não chega, diz , pois o número de pacientes a recorrer à clínica vindos da Birmânia aumentou.

Um patrocinador internacional ofereceu-se para financiar a construção de uma nova clínica para a Dra. Cynthia o que aliviaria a crescente pressão no edifício existente. Entretanto o Dr. Simon Tha, um médico Karen conhecido e negociador da paz entre grupos de rebeldes Karen e o regime birmane, é noticiado como estando a abrir um hospital financiado pelos japoneses em Myawaddy, a cidade birmanesa oposta a Mae Sot.

Questionei-me se os pacientes da Birmânia e do Estado de Karen poderiam procurar tratamento neste hospital quando abrisse, em vez da clínica da Dra. Cynthia. “ Isso depende de como ele [Dr. Simon Tha] gerir o hospital” disse-me um doador.

Depois de visitar a Dr. Cynthia jantei com um conhecido dissidente que viveu na área fronteiriça durante vários anos. Ele não escondeu a frustração quando falou da política birmane e da vida no exílio. “Estamos apenas a sobreviver” disse.

A organização dele recebe bolsas de algumas fundações sedeadas na América, mas ele disse que ele e os seus colegas estão fartos de pedir dinheiro e de responder às muitas perguntas dos doadores.

“Sei que eles não lêem os nossos relatórios” diz  – e eu podia sentir o orgulho e a frustração na sua voz.

Pelo menos, ele não tem de se preocupar com os doentes, apenas com a sua terra de origem politicamente doente. A luta por uma Birmânia livre necessita dinheiro e este é escasso. “Com dinheiro nós podemos aguentar e voltar a ganhar o nosso movimento.” disse-me acerca do corte nos fundos que os seus colegas enfrentam e das organizações ao longo da fronteira.

“Eu comprometi-me com a revolução durante quase 20 anos e não tenho nada” disse ele.

Mas ele quer aguentar mais uns anos para ver que mudanças vão acontecer no seu país e o que a sua organização pode fazer para ajudar. Mas, não há sinais de que os generais birmanes possam perder o poder dentro em breve, e ele também precisa de pensar numa saída pessoal.”Em 2008 precisarei de pensar em mim” suspirou.

A sua frustração e desapontamento não estão apenas direccionados para o regime. Ele rejeita a Asean pois não apresenta uma solução; critica os vizinhos dos birmanes afirmando a sua desonestidade e acredita que as nações mais poderosas estão demasiado ocupadas com assuntos não relacionados com  a Birmânia. “ Os EUA estão encurralados no Médio Oriente”queixa-se.

“Se ganhasses a lotaria o que farias?” Perguntei-lhe. “Vais comprar armas?” Ele riu-se, mas deu-me uma resposta honesta “Nós podemos ter boas lutas ou guerras não oficiais de guerrilha. Nós podemos tentar”. Talvez essa seja a sua intenção para voltar a ter esperança em derrotar a Junta Militar, e eu compreendo completamente que ele não queira dizer isto aos seus patrocinadores dos EUA , ou da Europa. “Não se preocupem, têm o Rambo na cidade”  brinquei, referindo-me ao novo filme de Hollywood que mostra uma equipa de resgate na Birmânia.

Acabámos as nossas bebidas, pagámos e saímos do restaurante. Mae Sot estava calma, escura e morta para o mundo. Mas, na escuridão, imaginei os birmanes escondidos nos campos de arroz, a dormir em pequenos abrigos ou incansáveis atrás das barras da prisão. E vi faces nas luzes fracas das estradas a rirem-se e a esperarem por clientes. Suspeito de que não concordariam comigo quando digo que Mae Sot mudou.

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Crianças do Mundo

 

Decidi começar este artigo com um lugar comum. É inevitável porque exprime exactamente aquilo que sinto neste momento.

Como se costuma dizer tantas vezes e em tantas ocasiões, “as crianças são o melhor do mundo”.  De facto são!

Mas, então, porque são também as que sofrem mais e as que carregam ao ombro pesos e consequências de momentos, causas e acções que não são suas?

Hoje não me refiro às nossas crianças de Lisboa e, arrisco a escrever, de Portugal. Essas, na sua maioria, têm sempre uma oportunidade que pode, ou não, ser aproveitada. Hoje refiro-me às Crianças do Mundo. Mas não às do mundo que conhecemos.

Escrevo sobre as crianças que já nascem condenadas.

Aquelas que olhamos e que, quando concentramos o nosso olhar no delas, nos dão um sorriso! Algumas agradecem.

Por onde tenho passado tenho encontrado tantas crianças! E são tão bonitas! Umas são inocentes outras são sofridas! Umas mentem e enganam outras dão-me a mão! Outras sorriem de volta mas todas são pobres, todas lutam diariamente pelo pão! Todas têm menos oportunidades, uma vida traçada desde o dia em que nascem! Crescem e vivem no mesmo sitio, sem ver mais além do quintal! Não conhecem mais cheiros nem sabores! Não vêm mais cores além das que as rodeiam!

O ar que respiram será sempre igual, e mesmo que tenham mais ambições, vão acordar sempre à mesma hora, para ter um dia idêntico ao anterior e dormir na mesma cama de sempre! Algumas são tristes, muitas são alegres. Não nos cabe a nós mudar os sonhos destas crianças. Temos o dever de lhes dar formas de sonhar! Não permitir que sejam abusadas, violadas, raptadas, prostituídas, famintas, sujas.

O cor de rosa dá lugar ao cinzento escuro.

As crianças são o melhor do mundo, são todos os sorrisos e alegrias. São também as lágrimas mais sofridas, doridas.

As Crianças do Mundo são as crianças de San Miguel na Costa Rica, com quem brinquei durante três semanas, são as Crianças de Maputo, Moçambique, com pele escura e dentes brancos, que me pediam dinheiro para as fotografar, são as crianças do Brasil que me pediam gelados ou me tentavam ludibriar para conseguir alguns reais, são as crianças do Cambodja, feitas soldados desde os sete anos, são as meninas chinesas largadas pelos pais em orfanatos, são os meninos de Dilí em Timor, brincalhões e mimados, como diz a minha amiga Sónia que há seis meses faz voluntariado naquele país!

São todas as crianças, as que conhecemos e as que nunca sorrirão para nós, as que um dia nos abraçaram e as que morrem sem termos tido tempo de chegar a elas. São os meninos de barriga grande, os que morrem de varicela, os que já mataram e os que não têm culpa de nada! Crianças inocentes ou crianças que crescem á força!

Mas... mas nós não nos importamos, não é?

Tatiana Figueiredo

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Prostituição/Turismo sexual, a escravatura do séc. 21. O Cambodja, o país onde os traficantes de sexo são reis

 

O tráfico sexual é a escravatura do séc. 21 e, no entanto, é uma das indústrias mais crescentes a nível mundial. Para percebermos até que ponto este tráfico é vergonhoso vejamos o segundo andar do Hotel Hour II na capital do Cambodja (também Kampuchea).

É como um aquário: atrás de uma parede de vidro estão dezenas de adolescentes numa postura imaculada, cada uma com um número. O cliente escolhe uma rapariga pelo número e o gerente entrega-a mais tarde, por uns momentos, num quarto privado. 250 meninas estão confinadas e trabalham neste labirinto de celas de 6 patamares.

A mulher com posição mais elevada nas forças policiais no Cambodja ordenou um raid no armazém do Hour e salvou 83 meninas. Elas foram levadas para um refúgio orientado pela AFESIP, uma ONG, liderada por Somaly Mam e o seu marido.

Mas no dia seguinte, o cabecilha do tráfico de meninas vingou-se e atacou o refúgio com 30 homens, alguns dos quais envergando uniforme militar e conduzindo jeeps com matrícula do exército, trazendo de volta todas as meninas do bordel.

A mulher oficial da polícia que ordenara o raid foi repreendida e suspensa pelos seus superiores.

Os traficantes de droga estatais foram conhecidos; o Cambodja pode ser o primeiro estado traficante de sexo. O tráfico de sexo é maioritariamente controlado pelo crime organizado e os criminosos utilizam os seus lucros para comprar políticos e funcionários públicos. Não recuando por nada, o bordel tem a AFESIP na Justiça e reclama 1.7 milhões de dólares por danos de interesse, esperando com isso forçá-la a sair do país. A AFESIP tem recebido muitas ameaças de morte: “Isto é muito perigoso e temo muito pela minha segurança”, diz Pierre Legros, um dos fundadores da AFESIP, que arranjou oito guarda-costas para proteger os seus filhos. A sua esposa cambojana, Somaly Mam, presidente e também fundadora da AFESIP, já foi ameaçada duas vezes com um revólver na testa.

No séc. 19, o mundo civilizado reconhecia a escravatura como uma mancha na moral da Humanidade e protestava contra isso. Então, porque deveremos aceitar este tipo de escravatura no séc. 21, o qual aprisiona jovens raparigas entre os 8 e 15 anos de idade em bordéis e condena-as a morrer de SIDA?

 

 

 

Todos os dias milhares de crianças atravessam a fronteira entre Tailândia e o Cambodja em busca de trabalho. Grande parte delas acabam por sofrer abusos e maus-tratos e muitas são vendidas para a prostituição.

 

 

 

 

Artigo de Nicholas Kristof sobre a escravatura do séc. 21 (2005)

Poipet, Cambodja

Quando descrevo o tráfico sexual como a escravatura do séc. 21, estou certo de que muitos leitores levantam os ombros e consideram que é uma hipérbole.

Há dois anos atrás, com a idade de 15 ou 16 anos – não se sabe ao certo a sua data de nascimento –, Sray Rath decidiu trabalhar na Tailândia por dois meses para oferecer um presente à sua mãe no dia de Ano Novo de Kampuchea. Mas os traficantes que, supostamente, deveriam fazer entrar ilegalmente Sray Rath na Tailândia como ajudante num restaurante, levaram-na antes para Kuala Lumpur, a capital da Malásia, com outras quatro raparigas. Lá, ficaram sequestradas num bar karaoke que funcionava, também, como bordel, e viram-se forçadas a ter relações sexuais com os clientes. SR recusou-se indignadamente. “Então o dono ficou chateado. Bateu-me na cara com as duas mãos. As marcas permaneceram duas semanas.”

Foi o início do inferno. As raparigas eram forçadas a trabalhar 15 horas por dia, 7 dias por semana; jamais eram pagas ou autorizadas a sair. Era-lhes interdito pedir aos clientes que usassem preservativo. “Eles só nos davam comida, e não muita, porque os clientes não gostam de raparigas grandes.”

As raparigas estavam informadas de que seriam mortas se tentassem fugir. Mas o desespero era tanto que, uma noite, trancadas num apartamento no décimo andar, tentaram montar uma espécie de “ponte” entre a janela do compartimento onde se encontravam e a do prédio de trás, de quatro metros. Lançaram-se na prancha, a dez andares de altura. “Pensámos que, mesmo se morrêssemos seria melhor do que permanecer lá. Se tivéssemos permanecido, morreríamos a qualquer momento” declararam as raparigas.

Uma vez no outro prédio, tomaram o elevador e dirigiram-se a uma esquadra da polícia. Mas as forças policiais não demonstraram interesse no seu caso, aliás, retiveram-nas e julgaram-nas por emigração ilegal. SR passou um ano na prisão por isso. Quando foi libertada, um oficial da polícia Malaio vendeu-a a um taxista, o qual a vendeu a um oficial de polícia Tailandês, que por sua vez a vendeu a um bordel tailandês.

SR escapou novamente mas, desta vez, encontrou refúgio numa associação de assistência, a AAC. (…)

AFESIP, criada em 1996 no Cambodja, uma ONG que luta contra a procura e o tráfico de crianças, é constantemente ameaçada desde que se tornou activa: “Estou completamente esgotada!” – proclamou Somaly Mam, “Há oito anos que luto. Já não tenho mais moral…”.

Somaly Mam é a presidente desta ONG financiada pela UNICEF e pela União Europeia, que tem como objectivo lutar contra o tráfico de crianças e a prostituição forçada de mulheres.

A 8 de Dezembro, um grupo de homens, alguns armados, irromperam num dos centros, em Phnom Penh, e levaram consigo 91 mulheres acolhidas pela associação. “Eles são os procuradores e os seus amigos”, revela Somaly Mam. “Anunciaram que nos iriam matar a todos, um por um. Antes de partir comentaram: “Tu e a tua associação, vocês não têm nada. Nós, nós temos dinheiro. Podemos fazer o que queremos, até fazer um morto dançar!”

Somaly Mam, às vezes, está perto de acreditar. “Tenho a cabeça a prémio”, alega. Não se desloca sem guarda-costas. “Já não temos vida própria, explica o marido, o francês Pierre Legros. “Temos também que proteger os nossos filhos. E a minha mulher vai ter que sair do país.” Este episódio é indubitavelmente um dos mais violentos na história da ONG, que apesar disso já conheceu outros.

Somaly Mam afirma : “ Eu, como antiga vítima, queria aprender com estas raparigas a verdadeira vida, a liberdade” –, a associação que emprega 150 pessoas, denuncia à polícia e à Justiça os estabelecimentos que exploram crianças ou forçam mulheres a prostituírem-se e apoia as vítimas na sua reintegração. “O verdadeiro e grande problema não é a prostituição em si, mas a sua procura”, insiste Pierre Legros.

Em oito anos, a associação tornou-se suficientemente forte para atacar grandes estabelecimentos, como o Chay Hour, um hotel que emprega 200 prostitutas. Eles “vendem” particularmente as crianças virgens: é que…os clientes pagam mais por elas. Assim, muitas dessas jovens são cosidas, por vezes cinco vezes por dia, para poderem fazer “render” mais a sua virgindade.